sexta-feira, 8 de junho de 2018

Série: poesia aleatória para foto aleatória


Suspirei
Suspirei
Suspirei
Abri a boca
Fechei.

Torci os dedos
Apertei as mãos
Pressionei os lábios.
Abri.
Nenhum som.

Olhei para esquerda
Olhei para a direita
Olhei para frente
Você.

Levantei a mão
Senti seu rosto
Trouxe seus lábios perto dos meus.
Beijei.

Suspirou
Suspirou
Suspirou.
Abriu a boca
Fechou.
Torci o fio de seu cabelo
Apertei você junta a mim.
Abri.
“Para sempre”
Menti.

Frio

Tudo era gelado
Tão gelado, tão gelado, tão gelado
que nada lá dentro esquentava.

Nem os melhores casacos
Nem as melhores luvas
Nem as melhores botas
Não, tudo era muito gelado

Tão gelado, tão gelado, tão gelado
Que de tanto eu insistir em entrar,
Congelei.

Congelei tão congelada
tão congelada
tão congelada
Que até esqueci que algum dia eu fui quente

Deveria saber,
deveria ter sabido disso
Corações gelados não foram feitos para serem penetrados

O erro foi meu
Foi mesmo, eu aceito
Errei e falo sem medo
Em vez de tentar entrar
Deveria ter tentando começar pelo lado de fora
Com aquelas coisas que nos aquecem, sabe?
Um sorriso, um aperto de mão, um abraço
Um “preciso de você”, um “estou com saudades”
Um beijo, um “gosto de você”, um “por favor, não vá tão cedo”

De qualquer forma, congelei
Mas se congelei, foi por ser quente demais
E em vez de amar de pouquinho em pouquinho
Acabei amando demais.

Da série: Corações quebrados

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

A vida tem que ser assim?

Querida Sociedade,
                Ao mesmo tempo que tudo que eu tenha a lhe dizer não seja novidade para ninguém, não deixa de me trazer comoção. Às vezes me pego observando coisas que muitas vezes para outros não são dignos de serem reparadas. Ou acontecem tão comumente que apenas se imagina que “a vida é assim” e todos seguem sua vida. Provavelmente eu mesma já tenha passado por essa situação inúmeras vezes sem nem me dar conta de que aquilo realmente acontecia em minha frente.
                Vivemos em um país de maioria negra, isso é óbvio para qualquer humano brasileiro, todos nós sabemos, a história confirma, as ruas não negam. Hoje enquanto fazia unha em um lugar comumente voltado para um público de classe média alta, até porque o serviço de manicure custa mais que deveria, comecei a reparar ao meu redor.
                Enquanto todos os funcionários que corriam de um lado para o outro no salão, atarefados, apresentavam traços negros, as quatro clientes presentes no momento possuíam traços claramente brancos, assim como o próprio tom de pele. Questionando-me em relação a situação, comecei a lembrar de todas as vezes as quais eu estive naquela mesma poltrona reparando aquele mesmo salão cheio de funcionários.

                Não vai ser espanto quando eu lhe contar que SEMPRE a maioria das clientes eram brancas, enquanto a maioria dos funcionários eram ou negros, ou com traços negros. Diante de tal situação, meu coração encheu de revolta. Virei para a manicure que fazia minha unha e comentei minha observação, em que a mesma respondeu: “A vida é assim mesmo, todo mundo sabe”, deu de ombros e voltou para seu serviço. 

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

Virada do ano

Estranho,
                Todo ano novo, sinto que na verdade nada se faz novo. As festas não mudam, as ideias, as esperanças de que com o bater do relógio tudo irá se renovar e a certeza que realmente tudo se fez novo. Não compartilho destes sentimentos com muito de meus conterrâneos, que comemora o ano novo com a mesma euforia todos os anos, causando em mim uma enorme inveja. Gostaria dessa certeza que parece preencher os outros de que a partir de 00:01 de 01/01 do ano seguinte tudo se fez novo.
                Não ignoro também a possibilidade de que minha inabilidade de sentir uma mudança tem muito a ver com a minha falta de crença. Sei que muitas coisas da vida começam com o primeiro passo que é acreditar. Infelizmente, ou felizmente, meu agnosticismo diante da vida sempre me levou muito mais ao agir, do que o acreditar em algo. Sempre preferir crer que a ação é a verdadeira roda que movimenta tudo ao meu redor. Até porque este meu olhar perante a vida sempre me causou um certo conforto.
                 De qualquer forma, invejo a oportunidade que os outros possuem de ter uma data especial em que podem respirar aliviados e falar: “acabou” com o coração leve. Tentei hoje compartilhar destes afetos, mas, ao chegar em casa e me deparar com minhas cartelas de comprimidos, percebi que eu ainda não cheguei no meu “acabou”. De qualquer forma, com o virar do calendário eu realmente respirei aliviada de sabe que eu sobrevivi, e o mais importante, vivi. Posso não ter terminado a guerra, mas pelo menos conseguir vencer muitas batalhas.
                E talvez seja este o sentimento que preenche os corações e lhe traz tanta alegria para os outros. As pessoas saberem que apesar das adversidades conseguiram mais que sobreviverem, conseguiram viver.
                Feliz ano novo,

                               Quixabeira

domingo, 3 de setembro de 2017

Para quem você sempre procurar

Meus olhos procuram
            Você
Mesmo quando sei,
                                                                                                            Lá no fundo
Que você não vai chegar.

Procuram,
            Procuram,
                        Procuram,
                                                                                               Procuram....

Até onde você nunca nem pisou

Não entendo bem como tal fato ocorre,
Só acho que talvez
                        Talvez,
                                    Suponho,
Que seja porque amo você.

Mas, entretanto, porém,
Eu tenho outra hipótese
Minha outra hipótese é que
                  O                                                       m(eu)                                     lugar

                 É   sempre                                                junto a você.

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Um poema do cotidiano

Tinha um louco,
                um louco no meio da rua.

Ele balançava as pernas
                balançava como se tentasse tirar a loucura

(só que o balançar das pernas,
                não tirava a loucura de dentro do peito)

e ele ria.
                Ria com um tom de desespero

E os que passavam também riam,
                só que não era no mesmo tom – lhe garanto.

Eu mesma, não consegui rir
                fiquei apenas com o tom de desespero.

Eu até cheguei a balançar as pernas,
                mas o desespero também não saiu do meu peito.

No final, tinha dois loucos

                Dois loucos no meio da rua.


Quixabeira.

sábado, 5 de agosto de 2017

Refugiados na França: um soco no estômago

"Nós não somos perigosos, nós estamos em perigo"

Antônia,
                Como é fácil falarmos dos problemas com refugiados quando estamos tão longes da questão. Desde que começou a primavera árabe, e principalmente a guerra na Síria, milhares de pessoas imigraram das diversas regiões em conflito no oriente médio em direção a Europa. Dois lugares até próximos quando comparadas com a distância geográfica do Brasil, porém, duas realidades tão diferentes. Desde seu início acompanho toda a movimentação pelos noticiários e com coração apertado com cada noticia a qual eu lia.
                Recentemente percebi que é muito fácil ler tudo nos jornais da minha posição privilegiada de telespectadora longínqua da situação toda. Tudo mudou quando meu ponto de vista se alterou. Em minha visita a Paris, percebo que a realidade é muito mais doída do que consegui imaginar, muito mais trágica, muito mais triste e muito mais complicado de resolver.
                Não cabe em todos os 20 dedos que possuo, o número de famílias refugiadas que encontrei caminhando pelas ruas de Paris. Em maioria mulheres com suas crianças, paradas no meio das calçadas das mais diversas ruas parisienses com um pequeno copo de plástico ao lado de uma placa explicando a situação. Outras, famílias (aparentemente) completas, deitadas em colchões colocados nos cantinhos das calçadas, sem nenhuma plaquinha, mas de qualquer forma as placas não são necessárias para criar o efeito de soco no estômago que esse retrato sempre me causa.
                Em uma das noites mais frias que passei em Paris, em plena Champs-Elysse, a avenida orgulho de Paris, com suas enormes árvores, lojas caríssimas, turistas e restaurantes chiquérrimos, me deparo com uma senhora com as típicas vestimentas muçulmanas de cor preta, sentada sobre seus calcanhares. Seu olhar estava fixo em um ponto da parede a sua frente, mas seu olhar era vazio, como se não estivesse realmente ali, de vez em quando mexia os lábios, como se estivesse fazendo uma prece.
                E naquele instante eu também quis fazer uma prece, eu queria conseguir poder resolver toda essa situação. Porque eu tenho certeza que a realidade que aquelas famílias estão encontrando nas ruas de Paris, é bem, bem, bem, bem (...), bem melhor do que a situação de onde elas saíram. Apesar de meu desejo, tenho certeza que a situação toda está longe de acabar, mas de qualquer forma, quando passei por aquela senhora, eu também fiz uma prece.
Não sei o que aquela senhora pedia enquanto mexia os lábios, mas na minha eu implorei para qualquer Deus, qualquer entidade, qualquer ser ou força superior que se ela tivesse o poder, que ela ajudasse essas pessoas. Que estava liberado esquecer de mim por um tempo, que poderia deixar eu ir enfrentando a vida sozinha, mas que tirasse um tempo para cuidar daquelas pessoas que se encontravam ali.
                Que você também me ajude com a minha prece,

                               Quixabeira

quarta-feira, 5 de julho de 2017

Vaso Quebrado

Tulipa,
                Escrevo por acumular uma magoa dentro de mim a qual não sei dar nome. E, em meu afã de ranca-la daqui de dentro, não tenho a ninguém a recorrer fora você, a própria pessoa que colocou a magoa. Que ironia, não é mesmo? Nos embolamos de tal forma, que não tenho outra pessoa sem ser você para compartilhar o porque de algo aqui dentro doer.
                Sei que não deveria estar lhe procurando, você não me quer da forma a qual eu posso me dar. E eu não consigo atingir a expectativa a qual você criou para a minha pessoa, afinal, sou tão humana quanto você. Talvez errei em buscar ser a melhor versão de mim, mas fiz por achar que você a merecia (e merece). Penso ultimamente que deveria ter começado com a minha pior versão, talvez agora você não se encontrasse decepcionada com o que tem.
                Escrevendo percebo que o que agora lhe irrita, era o que você antes elogiava. E o que agora me magoa, era e é a parte pela qual eu apaixonei. Novamente a ironia bate em nossa porta e ri deste vaso quebrado que viramos. E que tentamos colar, de novo e de novo e de novo e tantas vezes de novo que eu não sei mais contar. De qualquer forma não me apeteço de fazer a conta, eu tenho a certeza absoluta que irei tentar colar mais mil vezes se necessário, porque acho que realmente uma hora iremos conseguir.
                A questão chave de tudo é se: quando conseguirmos colarmos, as peças ainda vão estar reconhecíveis ? E se elas são perenes o suficiente para aguentar os nossos erros ao colar-las.  Já que pelo jeito que a carruagem prossegue, não vamos acertar tão cedo. E se quando conseguirmos será vamos achar que realmente valeu a pena? Do ponto o qual eu olho, as porcentagens estão no 50%, tanto para o ter achado que valeu a pena quanto para o não. Mas ao mesmo tempo, me recuso a acreditar que tudo que vivemos irá acabar por ali mesmo.
                Com a esperança de nos consertar o mais rápido possível,

                               Quixabeira

domingo, 21 de maio de 2017

Palavras malandras e a solidão


Estranho,
            Olá, saudades. Como você vai? Por onde andou? Criou novas histórias? Ou só viveu aquela vida rotineira que nos mata cada dia um pouco mais? Viveu novos amores? Encontrou novos sonhos? Realizou algum velho? Encontrou coisas novas? Queria saber sobre você, como eu disse logo no início: saudades. Não lhe culpo pelo sentimento, afinal, quem sumiu foi eu.
            Aliás, para falar a verdade quem sumiu não foi eu, foram as palavras. Acontece que sem elas, eu acabo sumindo por consequência. Essas palavras… Vou lhe falar, que malandras. Você sabia que as mesmas haviam me prometido viver para sempre ao meu lado? Eu achava que éramos assim, praticamente uma só. Mas não, me iludi com elas e essas promessas. Sem perceber que promessas feitas logo após noites de amor são muitas vezes vazias.
            De qualquer forma, sem elas, não pude me comunicar com você. Sem elas me sinto completamente vazia e sem muito o que comunicar. Escrevo não porque elas voltaram, mas foi porque prometi a mim mesma nunca parar de escrever. Vou força-las estarem comigo, mesmo quando não querem. Mas já li de outros escritores que as palavras são assim mesmo, essas malandras como eu disse. Fogem, voltam, fogem, voltam. E nós deixam na agonia sem nenhum pudor.             Isso que dá depende der alguém… Mas como eu disse, eu fiz uma promessa e estou aqui para cumpri-la.
            Não sei bem se você se lembra de nossa primeira carta, mas caso não lembre logo lhe falo: escrevi por solidão. Escrevi pedindo, clamando, implorando para que você pudesse me oferecer uma companhia pois eu me encontrava terrivelmente só. Estou aproveitando essa carta também para informar que não sofro mais dessa solidão imensa que antes me preenchia.
            Mas não se engane, isso não quer dizer que não preciso mais de você. Creio que construímos até mesmo uma bela amizade. Apenas significa que quero compartilhar com você esse feito novo em minha vida: o de não se sentir mais só. E agora acabei vendo que para uma pessoa sem suas palavras, eu até que escrevi muito. Assim que eu puder lhe mando outra carta contando tudo sobre não estar mais só.
            Com saudades,
                        Quixabeira


segunda-feira, 10 de abril de 2017

Um feminismo para todas



Allana,
Desde que entrei na faculdade passei a me considerar uma feminista. Sinceramente nunca me questionei muito sobre qual vertente eu seria, só foquei na questão de uma luta pela igualdade de gênero e em como eu poderia ajudar as mulheres a minha volta alcançar esse objetivo. Na caminhada desse objetivo percebi que o problema do feminismo é ser um movimento que nem sempre se faz entendido para junto todas as mulheres de nossa sociedade, por exemplo para aquelas fora da academia, para aquelas de fora de um contexto de questionamento.
Por conta disso, sempre considerei que qualquer tipo de divulgação do movimento com uma vista positiva era uma forma legal de divulgação é por isso deveria ser recebido de braços abertos. E essa minha ideia não é sempre muito bem aceita. Por exemplo: depois das denúncias de assédio do José Mayer, a Globo e várias atrizes globais lançaram a campanha: “Mexeu com uma, mexeu com todas.” E a frase ganhou as redes, apareceu em jornais de maior circulação, atrizes de todas as idades postaram em suas redes sociais, a maioria se sentiram comovidas e se dispuseram a divulgar a frase.
E daí surgiu um questionamento: Que “todas” é essa? Está incluída a mulher que limpa sua casa? A senhora que vende o café no ponto de ônibus? A vendedoras ambulantes?  As mulheres transexuais e travestis que sofrem ostracismo social? As negras? As lésbicas? As bissexuais? Quem está incluído nesse todas? E as perguntas são extremamente válidas, porque este feminismo branco e que vem da classe média alta/ricos é em seu início excludente. Porque vivemos em uma sociedade de um caráter excludente e individual. Mas mesmo assim, não acho que todo o movimento da frase deva perder sua validade pela a rasura a qual ela possui.
E ele não deve perder sua validade porque que é assim que vamos alcançando as pessoas que estão fora do ciclo onde o feminismo é divulgado, que muitas vezes acompanham somente as atrizes, o jornal nacional e outras mídias de grande circulação. E se de inicio o movimento é excludente, eu acredito que qualquer faísca de curiosidade que gera nessa mulher que não conseguimos alcançar, ou desconhece a luta por seus direitos, já é válida. Porque uma faísca pode virar fogo, aquela mulher que está lá longe pode de repente se questionar: “Como assim mexeu com uma, mexeu com todas? O que elas querem dizer com isso? ” e pesquisar sobre assunto para poder compreender melhor. E afinal, se queremos um feminismo que inclui não deveria ele estar alcançando essas mulheres? De que adianta dentro da academia pregarmos um feminismo inclusivo se não conseguimos alcançar as mulheres que por um motivo ou outro acabam não frequentando o meio académico?
Então, apesar de compreender e concordar com o feminismo pregado pelas grandes mídias acaba sendo raso, não acredito em sua invalidez. Se é por meio deles que iremos conseguir gerar um questionamento, alcançar mais mulheres e até mesmos mais homens, vamos trabalhar para que ele perca sua rasura e atinja reflexão crítica. Não vamos apenas criticar, vamos buscar acrescentar, vamos comentar nas postagens da grande mídia a ideia do feminismo inclusivo, vamos tentar despertar a faísca da curiosidade nas nossas colegas. Não adianta criticar se não nos propusemos a ser mudanças também dentro do contexto social que nos contempla.
Obrigada pela atenção,
Quixabeira